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sábado, 20 de abril de 2013

Capítulo 95: Carta de um Gay para sua Mãe (A Viagem III - Parte 4)



Existem momentos na vida da gente em que parece que o mundo desaba, o chão some dos pés. 

O frio toma conta da barriga, tudo fica vazio por dentro... e as palavras somem...então você perde todas as armaduras criadas ao longo da vida. E não há forte ou fraco nessa hora... Todos se perdem em tal sentimento. São segundos marcantes por toda uma historia. É tudo que você consegue pensar no dia, na semana e no mês. Foi assim que eu me senti quando ela entrou pela cozinha, e nos viu ali se beijando. Eu não tive reação alguma.
 
Ela se virou e partiu com a cara fechada e a cabeça baixa; ao chegar perto da escada ela ergue a cabeça respirando fundo e subiu firme para o quarto. Eu somente a olhei pela porta. Naquele momento eu fui ladrão, eu fui a decepção dela... Mas ela nem pensou na dor que transpassou meu coração, tanto quanto a dor que a transpassou também.

Ainda mais para ela que me via tão perfeito. Talvez ela depositava muitas esperanças em mim. Certamente ela esperava organizar a minha festa de casamento com muito luxo, para mostrar a todos o filho dela com a nora dela; mas naquele instante este sonho se esvaia... assim como o de ser avó. Estes talvez fossem os anseios delas... quem vai saber o que passou na cabeça dela? Mas... e os meus sonhos?

É nessa hora que você se pergunta se suas escolhas estão certas ou erradas. E entende porque muitos ficam longe da verdade. A verdade dói, arrasa coração. Temos medo de magoar, e ficamos perdidos porque de qualquer forma magoamos.

E nessa hora nem seu parceiro é capaz de acalmar ou curar teu interior. Pois trata de uma dor entre mãe e filho... Não se explica, transcende. Pena que muitos filhos e muitas mães não entendem.

Peço para ele partir, preciso falar com ela, ele insiste em ficar e cuidar de mim... Mas nessa hora nada é suficiente... apenas a esperança de olhar no olhar dela e receber um abraço. Mesmo esperando o pior, tudo o que se deseja é o melhor.

Subo as escadas vagarosamente, estou tremendo... chego a porta do quarto dela, mas me falta coragem de abrir a porta. Mas ela sentiu que eu estava ali, e abriu por mim. Eu simplesmente a olhei, neste momento fui menino querendo colo da mãe, mas ela simplesmente me disse:

– Suma da minha frente, de hoje em diante você morreu pra mim. Prefiro-te morto, do que com... –  Ela não terminou, mas eu entendi, e em passos largos ela saiu do quarto, desceu as escadas... foi para o clube aliviar a cabeça.

Aquelas palavras ressoaram dentro de mim, como ressoa uma voz no poço fundo.  Naquele momento eu era esfaqueado, surrado... flagelado.  Era tão duro ouvir e saber que sua mãe preferia te ver morto, do que sendo você mesmo... Saber que sua mãe te bania da vida dela. Será que ela não pensou na morte real que ela causava a mim? Ela me olhou com nojo... eu era nada diante dela.

Apenas sentei e chorei, muito. E assim se seguiu por um bom tempo. Ela não falava mais comigo, me tratava feito cão e sempre que podia me olhava com condenação. “Mãe, você é minha mãe... Porque me tratar assim, nem o mundo me machuca tanto quanto a recusa do seu amor”!

E foi assim que decidi escrever uma carta para ela, dizendo o que sentia, porque palavras eu já não tinha, e ela... ela jamais me ouviria.

Era Domingo de noite, eu sai de casa, ela havia me expulsado, fui morar com uma tia. Antes de sair abri a gaveta de jóias dela e deixei minha carta. Ao fechar a gaveta, olho-me no espelho... Mas quem sou eu? Já não sei, apenas choro.

Ela senta e se arruma pra sair com as amigas, abre a gaveta de jóias e La esta uma carta simples, molhada a lagrimas. Ela desconfiada abre a carta, para e lê. E naquele momento eu a dizia assim:

Boa noite mãe, pode ser que estas sejam minhas ultimas palavras para a senhora, mas gostaria que você tivesse conhecimento delas.

Hoje me lembrei da vez em que um menino na escola me bateu, eu era pequeno e estava chorando e machucado. Lembro-me de te ver correndo e se abaixando até mim... a senhora me olhou e me perguntou o que tinha me acontecido, eu mal conseguia explicar, então a senhora me abraçou... E tudo passou: a dor, o susto, o medo. Eu me senti seguro. A senhora brigou lá por mim. Houve outros eventos cujo a senhora foi meu porto seguro. Houve um tempo em que eu te ouvia dizer: “Eu morreria todos os dias por você se preciso”.

Sinto sua falta, sinto falta da mulher que dizia a todos que amava seu filho do jeitinho que ele era, e que me contava historias antes de dormir... que me esperava voltar da escola e das baladas... sempre preocupada em saber se cheguei bem.

O que aconteceu entre a gente mãe? Será o tempo ou a juventude que nos afastou um do outro? Que crime cometemos para tal pena. Hoje nos separamos, eu desejaria não ser pra sempre, mas não sei o que se passa contigo.

Tudo que sei é que neste momento em que eu preciso verdadeiramente da senhora ao meu lado, neste momento em que pareço estar me afogando em um oceano,  você não esta aqui.

Olho-te com olhar de criança, o mesmo talvez daquele tempo, um olhar desesperado e amedrontado, e tudo que encontro é condenação de sua parte. Já não se abaixas até a mim, mas me pisa. Eu esperava o mesmo abraço confortante de acolhimento daquela vez... Pois hoje continuo não sabendo me explicar... Mas ao invés disso você me baniu de sua vida, me desejou morto. Por quê? Onde está a mulher que morreria por mim? Será que realmente só minha morte lhe traria alegria? Sou tão sem significado assim para merecer tão desejo. Por acaso você sabe o que se passa dentro de mim? Mãe, você é minha mãe... Porque me tratar assim, nem o mundo me machuca tanto quanto a recusa do seu amor!

A mãe de um criminoso, de um drogado o acolhe... vai todos os dias a cadeia vê-lo. Pode até o adverti-lo, mas o ama, e por mais que ele apronte e ela chore por isso... ela sempre está ali para correr até ele. Mas porque amo outro homem a senhora me odeia? Eu não mato ninguém, não prejudico ninguém com isso, não estou roubando e nem estou me matando... Eu amo, simplesmente amo. Por um acaso desejarias que eu fosse um bandido, assassino ou um drogado que chega em casa e te bate em busca de drogas? Mas ainda assim me desejas morto. Talvez me desejasse o contrário se eu fosse um hetero violento e/ou perigoso. E se eu morrer hoje, como se sentirias realmente?

Sim mãe... eu gosto de meninos... e se este é meu crime... Peço que me absolvas, porque mesmo que tenhas deixado de me amar, eu sempre vou te amar. Porque ainda és a minha rainha.

Por favor, não tente me mudar ou curar, eu não tenho doença alguma e assim como o diamante não deixa de ser diamante após ser lapidado, eu não deixei de ser eu só porque optei por ser feliz a minha maneira.

Eu entendo sua dor, seus sonhos frustrados... seu medo de que eu sofra preconceito e até violência nas ruas por escolher ser verdadeiramente EU. Mas eu não posso anular os meus sonhos, a minha felicidade para viver a dos outros. Porque ninguém vai fazer isso por mim. 

Ninguém te obrigou a casar com o papai... Vocês casaram por amor, e você fugiria com ele caso meus avós proibissem vocês de se relacionarem.  E não me diga que é diferente, pois o mesmo amor que bate dentro de você por ele, hoje bate dentro de mim por um rapaz, sim um rapaz... Não tente entender... o amor não se entende. Apenas me ame, é tudo que peço. Não me rejeite, pois se viver no mundo sendo como sou já é ruim... pior é viver nele sem o seu amor e abrigo.

Ainda me desejas morto? Porque a senhora sempre vai viver dentro de mim... mesmo quando dessa vida tu partires.

Só te peço que me ame e aceites como eu sou, que não me trate mal e nem trate mal o meu parceiro, pois ele não te fez nada que mereça tamanho desprezo. Apenas peço amor. Porque não sei o dia de amanhã... e quando eu estiver partido, quero apenas confiar que em meio a toda turbulência... a única certeza que tive na vida... é que a minha mãe era a melhor do mundo... porque quando o mar me cobriu, foi a tua mão que encontrei para me trazer  a tona.



Eu te amo e sempre vou te amar. Eu não mudei... eu sempre fui assim... simplesmente decidi viver livre com a verdade, ao ficar preso na mentira que me mata, e que me fazia infeliz.

Até breve mãe.... Te amo, sempre! De seu Filho.... Samuel.”




TRILHA SONORA DESTE POST:






Se Você perdeu os outros Capítulos, veja-os agora.... e fique por dentro de "A VIAGEM":

3ª Temporada:
Capítulo 1 e 2 - "Quando você Partiu" (VEJA AQUI).
Capítulo 3 - "A Grande Festa" (VEJA AQUI).


1ª e 2ª Temporada:
Todos os Capítulos: CLIQUE AQUI.






Abraço a todos...






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23 comentários:

  1. Muito emocionante gostei mesmo porque descreve muita realidade de varios homosexuais

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    1. Obrigado, seu comentário é muito importante para mim e para o blog!

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  2. Li esse relato pra minha mãe e agradeci a ela por ser a melhor mae do mundo e me amar e me aceitar como eu sou!! Muito bom o blog! Obrigado

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    1. De nada adoraria de postar um dia, mesmo trocando os nomes caso vocês não queiram se expor, uma carata de sua mãe para você aqui. acho que seria enriquecedor. E quem sabe uma sua para ela... pense nisso!

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  3. Perfeito. Simplesmente, perfeito!
    Me emocionei muito e ne sentir muito mais seguro de mostrar a todos quem eu realmente sou.
    Apenas uma pessoa que ama!
    Muito abrigado por me ajudar!

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    1. De nada, conte comigo sempre! Depois se quiser contar sua história.

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  4. Muito lindo, me emocionei bastante, está até difícil de escrever esse comentário pois meus olhos estão embaçados de lágrimas, não sou assumido e ficaria muito triste se minha mãe tivesse essa atitude comigo, pois ser gay não é uma escolha, pois ninguém escolhe sofrer, ser destratado, humilhado, sofrer preconceito.
    As vezes fico me perguntando que mal nós gays fazemos a sociedade, porque somos tão martirizados apenas por sermos nós mesmos, drogados, ladrões, estupradores são mais respeitados e certos para a sociedade do que nós gays e isso é uma coisa incompreensível.
    Ficarei sempre de olho no blog para ver as novidades, parabéns pelo blog!!!

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    1. Obrigado pelo carinho, e em breve aguarde novidade! E creio eu escrevo justamente para conscientizar o mundo que nós temos valor! Divulgue meu blog quando puder! abraço

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  5. Meu,meio que eu tô comentando isso agora kk ¬¬ olha o tempo kk
    Mas eu descobri esse blog agora e mano mim apaixonei por ele cara,descreve cada coisa que agente passa :)
    E essa carta é muitoo foda velho,deu ate vontade de chorar aquii kk,ela passa o sentimento verdadeiro de um filho querendo ser amado novamente pela sua mãe.
    Mas ela o renega por conta que ele ama outro man :( Dá ate pena desses que se matam mesmo por conta de renegação por conta dos pais :(
    Mas saiba que eu gostei muitoo viuu hihi e tou vendo outras coisas aquii do seu blog hihi
    beijão e ate mais comentarios meu kk :) <3

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    1. obrigado, daki a pouco tem mais, e anoque vem sai o livro!

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  6. Eu nao li todo. Mais quando vir so o comeco comecei a chora mt. Tbm passo por isso. Minha familia nao aceita minha sexualidade. :-(

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  7. Meu Whats: (79) 96473088

    Quem quiser me chamar pra eu falar o que sinto de minha mae nao aceita a sexualidade

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  8. o meu skype é o mesmo q o email, pode me add se kiser

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  9. Querido ,

    Sem duvida é emocionante ! Para nós , que somos gays , há uma complexibilidade em várias campo da vida . Entretanto , acredite , você não está sozinho! Nunca esteve, ainda que não o soubesse, ainda que não admita. Somos muitos milhões como você, que sofremos e choramos pelos mesmos motivos, tivemos e temos medo das mesmas coisas, das mesmas palavras e atos, das mesmas discriminações e condenações, compartilhamos as mesmas dúvidas, os mesmos complexos, que já sentimos a mesma e infinita solidão em nossa insuperável “diferença”.

    Verá, aos poucos, que a luz entra em seu armário, aquece seu coração, abranda sua couraça. Não precisará dele (do armário) sair, enquanto não quiser, mas poderá nele viver mais confortavelmente, enquanto quiser e precisar. E não confunda a saída com a perda de si mesmo. Não entenda a saída como a obrigação de declarar ao mundo o que é, o que sente, como faz, de quem gosta.

    Pois não pode ser feliz aquele que não se conhece; nem aquele que, conhecendo-se, não se aceita; nem quem, embora se aceitando, não se respeita; ou aquele que se aceita, se respeita, mas ainda não se conforma e insiste em buscar uma identidade que não é, nunca foi, e pelo menos nesta vida nunca será a sua identidade.

    Não, você não está sozinho! Ergue a cabeça e segue. Em silêncio, na sua, mas convencido de que você tem tanto direito à vida e à felicidade quanto qualquer outra pessoa que está aqui neste mundo. Você não escolheu ser assim. Mas pode escolher entre ser feliz ou não!

    Querendo conversar , me adiciona no meu e-mail : diego_melo001@hotmail.com .

    Será todos bem vindo !

    Atenciosamente ,

    Diego de Melo , acadêmico de direito e membro da ong CORSA .

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  10. Estou maravilhado por esse blog , seu tabalho é lindo , me identifiquei muito com vc , parabéns e abraços 😍

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  11. Fernanda Georgiadis30 de março de 2015 16:01

    Olá, tudo bom? Entrei no seu perfil para entrar com contato, porém não consegui visualizar seu email. Há outra forma de eu poder falar com você? É para um projeto acadêmico. Obrigada!

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  12. Oi Fernanda: diariodeumgay2010@hotmail.com

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  13. Achei muito legal muito mesmo parabéns , não sou gay, mas pouco me importa quem seja cada um na sua.
    O Brasil pelo que me consta é livre.
    Mas fiquei curioso em saber a resposta da Mãe.

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