Estávamos ainda em festa quando o Réveillon chegou.
Esta era a “festas das festas” em casa, minha mãe não dispensava ostentação, contratava
os cozinheiros de maior nome para cozinhar para grandes convidados, convidados
de nomes e até alguns que nem eu conhecia.
Meu pai vivia para seus negócios, mal tinha tempo para parar e me dizer como ele estava; nem ao menos me dava um bom dia olhando nos olhos. Minha mãe era “uma grande Madame”, vivia entretida com seus cafés e chás de caridade, as vezes ia ao clube com as amigas, fofocar de certo, isso quando não estava na igreja. Minha mãe só sabia falar de dinheiro, pessoas, festas e vestidos. É certo que depois que ela descobriu sobre o Cadu e eu, muita coisa mudou. Ela estava mais meiga comigo, mais apegada a sua fé, mais comunicativa, mais amiga... acho que a situação nos aproximou, queria ter podido contar antes a ela sobre a minha sexualidade.
Sei que ela se comportaria igualmente, teria uma crise de revolta, mas pelo menos hoje a relação já estaria bem mais evoluída do que já está. Mas esta é uma fase, tenho que vivê-la bem e com responsabilidade. Tenho que dar tempo ao tempo. Ela já até começava a olhar e a sorrir para o Cadu. Às vezes eu os via trocando algumas palavras, conversando. Será que ela me mataria se soubesse que eu adoraria vê-la chama-lo de genro? Rsrsr. Acho que neste momento sim, quem sabe no próximo ano!
Cadu havia ido buscar nossos velhos amigos,
enquanto eu ajudava os entregadores a colocarem as entregas em seus devidos
lugares. O tempo parecia apertar, e apesar de eu estar muito feliz, algo ainda
estava martirizando o meu peito. Então corri a dispensa que estava bem escura,
iluminada apenas pela luz que entrava pelos outros cômodos da casa, encostei
minhas costas e cabeça na pare ligada a porta aberta, fechei meus olhos e pedi
a Deus que guardasse a mim e a minha família, e que guardasse o meu amor com o
Cadu. Que aquele sentimento de morte e dor fosse embora de mim, e que
pudéssemos comemorar o réveillon juntos, como família. Terminei minha oração e
ouvi então minha mãe me gritar:
– Samuel, onde você está, venha me ajudar menino!
Então eu abri meus olhos, olhei para a porta da
dispensa que estava aberta ao meu lado direito, e fui até minha mãe ajuda-la.
(...)
Ao chegar à noite, a casa estava fervilhando de
gente. Meus pais apreensivos recebem do mordomo uma informação e logo correm
para a entrada. Não era pra menos, o Governador do Estado acabava de entrar.
Algo me dizia que aquela festa reservaria muitas surpresas. (...)
Todos estavam se divertindo, mas eu continuava
sozinho, Cadu estava demorando pra voltar. Onde ele estaria? (...)
Fiquei em pé no jardim, embaixo das arvores, onde
as luzes não iluminavam tanto, observando a todos, sentado em um banco feito de
um carvalho velho todo esculpido rusticamente. Ora e outra crianças passavam
correndo, brincando de pegar umas as outras e sorrindo com espontaneidade. Eu
sorria também, pois dava uma nostalgia de quando eu era criança e não tinha
tantas preocupações. Do jardim eu podia avistar a festa toda, inclusive o
portão de entrada que ficava na parte mais baixa do jardim.
E no momento em que
fiquei em pé, para ir buscar mais bebida, pois minha taça já estava quase
vazia, eu ouvi um carro entrando pelo portão em som de muita festa. Eram os
meninos; que saudade deles... Cadu dirigia o carro. Eles saíram do carro
pulando e vieram correndo me abraçar. Eu dei um sorriso largo e desci as
escadas da parte superior do jardim e desci feito um raio para a parte mais
baixa, ao encontro deles. Que bom passar o ano junto de quem amamos. Era uma
festa só. Eu cumprimentei um a um e pude descobrir como cada um estava. (...)
Então depois de tanta confraternização olhei para o
lado e lá vinha meu amor com os braços para traz, fazendo cara de mistério e
andando meio que balançando o corpinho. Fazendo charme, muito fofo. Percebi que
ele escondia algo atrás de seu corpo, ou melhor, alguém... pois aos poucos ia
surgindo a figura de uma criança atrás dele.
– Quem é? – perguntei a ele.
– Espero que nem você e nem sua mãe briguem comigo.
Eu o vi sentadinho no semáforo chorando. Ele estava triste e com fome. Não tem
família. E pensei em convida-lo para a festa. Tudo bem amor?
Era um menino simples, mal vestido, com marcas de
lagrimas recém enxugadas nas bochechas. Pareceria ter no máximo sete anos. Mas
em seus olhos um brilho: aposto que ele nunca havia estado em uma festa como
aquela, ou numa casa tão grande como a minha. Dava pra ver um mundo de sonhos
no brilho de seu olhar.
Eu que olhava para o menino todo assustado e serio,
levantei meu olhar e encarei Cadu. Depois de uma breve pausa, dei-lhe um
sorriso e voltei a olhar para a criança. Coloquei minhas mãos sobre meus
joelhos e me inclinei para o pequeno garoto magrelinho e lhe disse:
– Seja bem vindo, espero que se divirta. Só coma de
vagar se não vai passar mal, tudo bem?

– Amor, minha mãe tem na garagem um monte de roupa
para doação de suas caridades, leve-o lá e veja uma mais apresentável a ele
para que ninguém o critique na festa e de um banho rapidão nele, aposto que ele
está precisando de um banho relaxante com este calor. Tem tolhas secas no
banheiro.
– Claro bebe! – Respondendo isso, Cadu o levou para
dentro da casa sem que ninguém notasse. (...)
Após um tempo fui atrás dos dois e mal comecei a
subir as escadas, começaram a descer. O menino estava todo lindinho, penteado.
Cadu levemente tocava os ombrinhos dele cuidando para que ele não caísse das
escadas. E insistia para o menino segurar o corrimão.
– Treinando para ser pai Cadu?
– Não seria uma má ideia, o que você acha?
Poderíamos adotar um para nós?
– Tudo há seu tempo. – dizendo isso me virei e
comecei a descer as escadas.
Cadu me segurou pelo braços, me virando para ele,
então desceu bem perto de mim e disse:
– Você se mudaria de país comigo? Sei que nós dois
sempre quisemos viajar pra fora, então...
– Já te disse: aonde você for eu vou. Só precisamos
planejar tudo para não morrermos de fome. – Então dei uma olhadinha ao pobre
garotinho, pois tinha medo da resposta o constranger. Mas eu sabia que aquela
conversa não era brincadeira, após o Réveillon, ele me chamaria pra ir embora
do país com ele.
– Eu te disse hoje?
– Disse o que?
– você está lindo... te amo.
– Oh bebe, você é mais. – olhei para o menininho
que fazia uma caretas e continuei dizendo – devemos tomar alguns cuidados, ele
ainda é uma criança deve estar perdido nesta nossa conversa. E a casa está
cheia, mas se não tivesse você sabe o que faria com você agora, nessa sua boca
– então, olhei para o menininho, dei uma piscadinha e continuei descendo e Cadu
sorriu mordendo a boca.
A festa continuava até que chegou a hora do grande
jantar de Réveillon. Apesar de meses espalhadas por nosso imenso jardim, meu
pai criou uma mesa enorme, bem comprida para as figuras ilustres se sentarem
junto a ele. A mesa parecia uma Santa Ceia, meu pai e minha mãe sentados ao meio,
políticos por toda mesa, grande empresário também; e ao lado direito de meu pai o
Governador do Estado. Apesar de meu pai insistir eu não quis me sentar junto a
eles à mesa. Reservei uma mesa logo à frente da mesa máster, onde eles estavam, para ficar junto de
Cadu, do garotinho e meus amigos.
Em um brinde pouco antes da contagem regressiva, o
governador fez um discurso bonito e fez um anuncio: Meu pai se candidataria a Senador e teria todo o apoio do Governador, que gostaria de vencer as próximas eleições juntos. Foi uma grande festa e
surpresa para todos, que se olhavam com bocas abertas e sorrisos. Minha mãe se
emocionando ao lado de meu pai que se levantava para fazer seu discurso em meio aos brindes, aplausos e gritos de festa. (...)
No fim do discurso ele solta a grande bomba para
Cadu. Ele me poria na Presidência das empresas, e eu assumiria os negócios da família.
Minha cara ficou pálida de imensa surpresa. Todos me olhavam aplaudindo,
inclusive meu pai que me encarava todo feliz. Eu só pensei em buscar o olhar de
Cadu na multidão que me ensurdecia. Ele estava serio, mas me aplaudiu. Eu
percebi que aquela noticia arruinaria o sonho dele de ir embora do país comigo.
O que fazer? Negar ou aceitar a proposta de meu pai? Porque meu pai não conversou comigo antes? (...)
Contagem regressiva, tudo era festa, Chegou o Ano
Novo... Muitos sorrisos e abraços! Dia Universal da confraternização.
Pirotecnia de excelência, meus pais não pouparam despesas, quiseram e conseguiram impressionar deixando a festa pra história.
Após os cumprimentos eu olhei para longe e vi Cadu
com um papel nas mãos. Me aproximei lentamente por traz dele. Ele percebendo
minha presença guardou no bolso do casaco o papel. E me pareceu que ele enxugou
os olhos.
– O que você tem, o que é isso que você guardou no
bolso?
– Nada amor, era só um papel bobo que me esqueci de
tirar do bolso e estava vendo, tarefas e compromissos velhos – disfarçou-o.
– Que te fazem chorar? Deixe-me ver!
– Para amor, não é por isso eu estou triste. E você
não confia em mim? – continuou disfarçando.
– Claro que confio, mas... Tá... diga... o que foi que houve,
é a declaração de meu pai? Isso? Olha vem aqui, vamos conversar...
Então Puxei meu noivo num canto a parte da festa
para conversarmos e nos entendermos, pois sabia que não poderia “Deixar o sol
se por sobre nossos sentimentos”, isso era bíblico, e eu precisava dialogar
para não deixar nada de ruim ser pedra de tropeço ou motivo de futura
separação. (...)
– Posso te pedir uma coisa neste Réveillon? –
perguntou Cadu a mim.
– Claro bebe, diga.
– Liste para mim seus desejos? Os que você desejou hoje na virada... Todos eles, eu
gostaria de saber.
E assim o fiz. Sorrindo fui contando, alguns eram
desejos mesmos e outros eram sonhos mais bobos, mas queria vê-lo feliz e tirar
aquele convite de meu pai da cabeça dele, para deixar a noite dele mais
feliz... e se ouvir meus desejos e sonhos o fazia contente, eu assim o fiz. Eu
só não sabia o real motivo dele me pedir aquilo. Mas tarde de mais eu
descobriria.
Neste tempo, meu pai recebe do mordomo uma carta,
sorrindo ele abre e a lê. Aos poucos seu semblante vai ficando serio.
Do lugar aonde eu e Cadu estávamos eu podia vê-lo.
Quando virei o rosto para o lado o vi nos encarando de longe, na outra
extremidade da festa. Do canto onde ele estava, seu olhar passava por todas as pessoas e
chegava até nós. Era um olhar comunicante, penetrante, quase sondava as minhas entranhas. Eu percebi que havia algo errado, mas o que? O que tiraria a
felicidade de meu pai logo hoje?
Ele deu uns poucos passos até a lareira, acendeu o
isqueiro e queimou a carta, que queimava bem de vagar. Eu deixei Cadu e bem de
vagar fui ver o que havia acontecido, ele estava realmente abatido. Não
consegui chegar perto dele, o tumulto me impediu. Ele caiu no chão tendo um
possível infarto. gritos, empurrões, eu tentei passar por todos... Correria total. Peguei-o nos braços e as pressas levamo-lo para o hospital (...). Eu dizia:
– Pai, o que houve, pai fica comigo, paiiiiii!!!
– Pai, o que houve, pai fica comigo, paiiiiii!!!
Eu não sabia o que estava na carta, saberia tempos e tempos mais tarde, que o conteúdo infeliz da carta era este:

Continua no dia 26 de janeiro de 2015...
Musica tema deste Post:
Backstreet Boys - Show'em (What You'r Made Of)
Se Você perdeu os outros Capítulos, veja-os
agora.... e fique por dentro de "A VIAGEM":
4ª Temporada:
Capítulo 1 - "Onde tudo começa, se chama
amor" (VEJA AQUI).
Capítulo 2 - "Ciúmes (Se eu não tiver
você)" (VEJA AQUI).
Capítulo 3 - "O Último Natal - Parte I" (VEJA AQUI).
Capítulo 4 - "O Último Natal - Parte II" (VEJA AQUI).
1ª, 2ª e 3ª Temporada:
Todos os Capítulos da temporada 1 e 2: CLIQUE AQUI.
Todos os Capítulos da temporada 3: CLIQUE AQUI.
Especial de Reveillon (transição da segunda para a terceira): CLIQUE AQUI.
Abraço a todos...
BY ME S2 (S-FCSP)
Clique Aqui
OBS:
Se você quer seguir este BLOG e não quer ser identificado e nem quer que ninguém saiba que você segue basta clicar na opção "SEGUIR ANONIMAMENTE".
Agora, se você não tem problemas em seguir abertamente este BLOG... è só clicar na Opção "SEGUIR PUBLICAMENTE".
F#&%"* da put* que diiiiiiiiio
ResponderExcluirOdeio quem faz isso
Tem que ir pro
Foda néh amigo?
ResponderExcluirDe mais.
ResponderExcluirDesculpa mais ter ex gay existe??? Acho que nao
Ótima Históriaa..Parabéns :)
ResponderExcluirvalew lucas!
ExcluirAdorei
ResponderExcluirValew Luiz
ExcluirAdorei
ResponderExcluir