Existem momentos na vida da gente em que parece que o mundo desaba, o
chão some dos pés.
O frio toma conta da barriga, tudo fica vazio por dentro...
e as palavras somem...então você perde todas as armaduras criadas ao longo da
vida. E não há forte ou fraco nessa hora... Todos se perdem em tal sentimento.
São segundos marcantes por toda uma historia. É tudo que você consegue pensar
no dia, na semana e no mês. Foi assim que eu me senti quando ela entrou pela
cozinha, e nos viu ali se beijando. Eu não tive reação alguma.
Ela se virou e partiu com a cara fechada e a cabeça baixa; ao chegar
perto da escada ela ergue a cabeça respirando fundo e subiu firme para o
quarto. Eu somente a olhei pela porta. Naquele momento eu fui ladrão, eu fui a
decepção dela... Mas ela nem pensou na dor que transpassou meu coração, tanto
quanto a dor que a transpassou também.
Ainda mais para ela que me via tão perfeito. Talvez ela depositava
muitas esperanças em mim. Certamente ela esperava organizar a minha festa de
casamento com muito luxo, para mostrar a todos o filho dela com a nora dela;
mas naquele instante este sonho se esvaia... assim como o de ser avó. Estes
talvez fossem os anseios delas... quem vai saber o que passou na cabeça dela? Mas...
e os meus sonhos?
É nessa hora que você se pergunta se suas escolhas estão certas ou
erradas. E entende porque muitos ficam longe da verdade. A verdade dói, arrasa
coração. Temos medo de magoar, e ficamos perdidos porque de qualquer forma
magoamos.
E nessa hora nem seu parceiro é capaz de acalmar ou curar teu interior.
Pois trata de uma dor entre mãe e filho... Não se explica, transcende. Pena que
muitos filhos e muitas mães não entendem.
Peço para ele partir, preciso falar com ela, ele insiste em ficar e
cuidar de mim... Mas nessa hora nada é suficiente... apenas a esperança de
olhar no olhar dela e receber um abraço. Mesmo esperando o pior, tudo o que se
deseja é o melhor.
Subo as escadas vagarosamente, estou tremendo... chego a porta do
quarto dela, mas me falta coragem de abrir a porta. Mas ela sentiu que eu
estava ali, e abriu por mim. Eu simplesmente a olhei, neste momento fui menino
querendo colo da mãe, mas ela simplesmente me disse:
– Suma da minha frente, de hoje em diante você morreu pra mim.
Prefiro-te morto, do que com... – Ela
não terminou, mas eu entendi, e em passos largos ela saiu do quarto, desceu as
escadas... foi para o clube aliviar a cabeça.
Aquelas palavras ressoaram dentro de mim, como ressoa uma voz no poço
fundo. Naquele momento eu era
esfaqueado, surrado... flagelado. Era
tão duro ouvir e saber que sua mãe preferia te ver morto, do que sendo você
mesmo... Saber que sua mãe te bania da vida dela. Será que ela não pensou na
morte real que ela causava a mim? Ela me olhou com nojo... eu era nada diante
dela.
Apenas sentei e chorei, muito. E assim se seguiu por um bom tempo. Ela
não falava mais comigo, me tratava feito cão e sempre que podia me olhava com
condenação. “Mãe, você é minha mãe... Porque me tratar assim, nem o mundo me
machuca tanto quanto a recusa do seu amor”!
E foi assim que decidi escrever uma carta para ela, dizendo o que
sentia, porque palavras eu já não tinha, e ela... ela jamais me ouviria.
Era Domingo de noite, eu sai de casa, ela havia me expulsado, fui morar
com uma tia. Antes de sair abri a gaveta de jóias dela e deixei minha carta. Ao
fechar a gaveta, olho-me no espelho... Mas quem sou eu? Já não sei, apenas
choro.
Ela senta e se arruma pra sair com as amigas, abre a gaveta de jóias e
La esta uma carta simples, molhada a lagrimas. Ela desconfiada abre a carta,
para e lê. E naquele momento eu a dizia assim:
“Boa noite mãe, pode ser que estas sejam minhas ultimas palavras para a
senhora, mas gostaria que você tivesse conhecimento delas.
Hoje me lembrei da vez em que um menino na escola me bateu, eu era
pequeno e estava chorando e machucado. Lembro-me de te ver correndo e se
abaixando até mim... a senhora me olhou e me perguntou o que tinha me
acontecido, eu mal conseguia explicar, então a senhora me abraçou... E tudo
passou: a dor, o susto, o medo. Eu me senti seguro. A senhora brigou lá por
mim. Houve outros eventos cujo a senhora foi meu porto seguro. Houve um tempo
em que eu te ouvia dizer: “Eu morreria todos os dias por você se preciso”.
Sinto sua falta, sinto falta da mulher que dizia a todos que amava seu
filho do jeitinho que ele era, e que me contava historias antes de dormir...
que me esperava voltar da escola e das baladas... sempre preocupada em saber se
cheguei bem.
O que aconteceu entre a gente mãe? Será o tempo ou a juventude que nos
afastou um do outro? Que crime cometemos para tal pena. Hoje nos separamos, eu
desejaria não ser pra sempre, mas não sei o que se passa contigo.
Tudo que sei é que neste momento em que eu preciso verdadeiramente da
senhora ao meu lado, neste momento em que pareço estar me afogando em um oceano, você não esta aqui.
Olho-te com olhar de criança, o mesmo talvez daquele tempo, um olhar
desesperado e amedrontado, e tudo que encontro é condenação de sua parte. Já
não se abaixas até a mim, mas me pisa. Eu esperava o mesmo abraço confortante
de acolhimento daquela vez... Pois hoje continuo não sabendo me explicar... Mas
ao invés disso você me baniu de sua vida, me desejou morto. Por quê? Onde está
a mulher que morreria por mim? Será que realmente só minha morte lhe traria
alegria? Sou tão sem significado assim para merecer tão desejo. Por acaso você
sabe o que se passa dentro de mim? Mãe, você é minha mãe... Porque me tratar
assim, nem o mundo me machuca tanto quanto a recusa do seu amor!
A mãe de um criminoso, de um drogado o acolhe... vai todos os dias a
cadeia vê-lo. Pode até o adverti-lo, mas o ama, e por mais que ele apronte e
ela chore por isso... ela sempre está ali para correr até ele. Mas porque amo
outro homem a senhora me odeia? Eu não mato ninguém, não prejudico ninguém com
isso, não estou roubando e nem estou me matando... Eu amo, simplesmente amo.
Por um acaso desejarias que eu fosse um bandido, assassino ou um drogado que
chega em casa e te bate em busca de drogas? Mas ainda assim me desejas morto.
Talvez me desejasse o contrário se eu fosse um hetero violento e/ou perigoso. E
se eu morrer hoje, como se sentirias realmente?
Sim mãe... eu gosto de meninos... e se este é meu crime... Peço que me
absolvas, porque mesmo que tenhas deixado de me amar, eu sempre vou te amar.
Porque ainda és a minha rainha.
Por favor, não tente me mudar ou curar, eu não tenho doença alguma e assim
como o diamante não deixa de ser diamante após ser lapidado, eu não deixei de
ser eu só porque optei por ser feliz a minha maneira.
Eu entendo sua dor, seus sonhos frustrados... seu medo de que eu sofra
preconceito e até violência nas ruas por escolher ser verdadeiramente EU. Mas
eu não posso anular os meus sonhos, a minha felicidade para viver a dos outros.
Porque ninguém vai fazer isso por mim.
Ninguém te obrigou a casar com o
papai... Vocês casaram por amor, e você fugiria com ele caso meus avós
proibissem vocês de se relacionarem. E
não me diga que é diferente, pois o mesmo amor que bate dentro de você por ele,
hoje bate dentro de mim por um rapaz, sim um rapaz... Não tente entender... o
amor não se entende. Apenas me ame, é tudo que peço. Não me rejeite, pois se
viver no mundo sendo como sou já é ruim... pior é viver nele sem o seu amor e
abrigo.
Ainda me desejas morto? Porque a senhora sempre vai viver dentro de
mim... mesmo quando dessa vida tu partires.
Só te peço que me ame e aceites como eu sou, que não me trate mal e nem
trate mal o meu parceiro, pois ele não te fez nada que mereça tamanho desprezo.
Apenas peço amor. Porque não sei o dia de amanhã... e quando eu estiver
partido, quero apenas confiar que em meio a toda turbulência... a única certeza
que tive na vida... é que a minha mãe era a melhor do mundo... porque quando o
mar me cobriu, foi a tua mão que encontrei para me trazer a tona.
Eu te amo e sempre vou te amar. Eu não mudei... eu sempre fui assim...
simplesmente decidi viver livre com a verdade, ao ficar preso na mentira que me
mata, e que me fazia infeliz.
Até breve mãe.... Te amo, sempre! De seu Filho.... Samuel.”
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Abraço a todos...
BY ME S2 (S-FCSP)
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